Por Fabio Rocca | Nas primeiras 72 horas do mês de abril, Araçatuba registrou seis furtos de fios de energia elétrica em diferentes bairros da cidade. Os crimes ocorreram durante as madrugadas e afetaram residências, consultórios e estabelecimentos comerciais, revelando uma possível ação coordenada de criminosos voltada para o furto de cabos de cobre.
A prática, porém, não se limita ao município. Segundo dados da CPFL Energia, concessionária responsável pelo fornecimento de energia em Araçatuba e diversas cidades do interior paulista, mais de 70 mil metros de fios e cabos foram furtados nas áreas de concessão da empresa apenas entre janeiro e setembro de 2023. Os prejuízos causados ultrapassam R$ 6 milhões por ano, considerando a reposição de materiais, mão de obra e danos a equipamentos.
Os casos afetam diretamente o fornecimento de energia em locais residenciais e comerciais e, em situações mais graves, impactam serviços essenciais como postos de saúde, escolas e hospitais. Ainda de acordo com a concessionária, o tempo médio para restabelecer a energia pode ultrapassar cinco horas, principalmente quando há danos em redes de média tensão ou equipamentos de medição.
Furtos em série em Araçatuba
Em Araçatuba, os furtos desta semana seguiram um padrão semelhante: os criminosos agiram durante a madrugada, cortaram fios dos padrões de energia, danificaram medidores da CPFL e causaram apagões nos locais. Em todos os casos, que ocorreram entre os dias 1º e 3 de abril, os cabos estavam conectados à rede elétrica e foram cortados e removidos, gerando interrupção no fornecimento, prejuízos materiais e transtornos às vítimas.
Em um dos casos, ocorrido na Rua Siqueira Campos, no bairro São João, um aposentado de 85 anos teve 20 metros de fios furtados de sua residência na madrugada de terça-feira, dia 1º de abril. O furto foi percebido apenas pela manhã, quando o imóvel estava sem energia. Os cabos haviam sido retirados do poste padrão até a rede principal da CPFL Energia.
No mesmo bairro, uma oficina localizada na Rua Aguapeí foi alvo de criminosos na madrugada de quinta-feira (3) . Foram levados novamente 20 metros de cabos de energia, também cortados da rede principal. Os funcionários perceberam o furto ao chegarem para o expediente e encontrarem o local sem iluminação.
Outro furto foi registrado no mesmo dia, por uma moradora do Jardim Iporã, que retornou para casa por volta das 10h da manhã e notou que não havia energia. Após verificação, constatou que os cabos haviam sido retirados do poste padrão e o medidor de energia havia sido danificado. O sistema da concessionária indicava interrupção desde as 9h40.
Também na manhã do dia 3, um assistente judiciário residente no bairro Primavera teve 20 metros de fiação furtados. Segundo o boletim, os autores escalaram o muro da casa e subtraíram tanto os cabos de entrada quanto os que alimentavam a rede interna da residência.
Casos semelhantes ocorreram ainda na Rua Rio de Janeiro, na Vila Mendonça, onde um consultório odontológico foi furtado pela segunda vez na semana, quarta e quinta-feira, dias 2 e 3 respectivamente. Foram levados 24 metros de fios de cobre, e o medidor da CPFL também foi danificado. O local possui câmeras e as imagens devem ser entregues à polícia.
Por fim, o sexto caso foi registrado na madrugada desta quinta-feira (3) por um comerciante na Rua Aguapeí, no bairro Jardim Guanabara. Os funcionários da empresa perceberam que os padrões de energia estavam arrombados e que 21 metros de cabos haviam sido removidos durante a madrugada, por volta das 3h30. As câmeras do local registraram a ação.
Resumo dos pontos mais atingidos:
- Rua Aguapeí (bairros São João e Guanabara): 2 furtos em oficina e empresa de autopeças
- Rua Siqueira Campos – São João: furto em residência
- Rua Santa Maria – Primavera: furto em residência
- Rua Rio de Janeiro – Vila Mendonça: consultório odontológico (furto reincidente)
- Rua Rio Negro – Jardim Iporã: furto em residência com medidor danificado
Em nenhum dos casos houve flagrante ou testemunhas presenciais. Algumas vítimas informaram possuir imagens de câmeras de segurança, que devem ser entregues à Polícia Civil. O Instituto de Criminalística (I.C.) foi acionado para realizar perícias nos locais e a Delegacia Seccional de Araçatuba acompanha os registros.
Até o momento, ninguém foi preso.
Medidas para mitigar o problema
Diante da crescente incidência de furtos de cabos de energia no interior paulista, a CPFL Energia afirma que tem adotado medidas para mitigar o problema. Entre as ações estão a blindagem e substituição de padrões de energia em áreas críticas, a instalação de equipamentos mais discretos e o reforço na orientação técnica a clientes e comerciantes sobre como proteger suas instalações.
Segundo a empresa, mantém parcerias com forças de segurança pública, como a Polícia Militar e a Polícia Civil, para o combate ao furto de cabos, com foco na fiscalização de ferros-velhos e sucateiros, onde geralmente o material furtado é revendido de forma clandestina.
Em nota divulgada, a empresa declarou:
“Além dos prejuízos materiais, os furtos de cabos de energia colocam em risco a vida das pessoas e impactam diretamente a população, deixando hospitais, escolas e residências sem energia elétrica. É um crime grave, que precisa ser combatido com rigor.”
A CPFL orienta que qualquer pessoa que testemunhe ações suspeitas ou sofra esse tipo de crime registre um boletim de ocorrência e entre em contato com os canais oficiais da empresa para relatar o fato. A concessionária ressalta ainda que jamais solicita informações pessoais ou pagamento fora de seus meios autorizados, e que a segurança deve ser priorizada em qualquer situação envolvendo a rede elétrica.
Endurecimento da lei para furtos e receptação de cabos
Em meio ao avanço desse tipo de crime em todo o país, a Câmara dos Deputados aprovou no final do ano passado um projeto de lei que aumenta as penas para furto, roubo e receptação de fios, cabos e equipamentos relacionados à energia elétrica e telecomunicações.
O texto, de autoria do deputado Sandro Alex (PSD-PR) e aprovado na forma de um substitutivo do deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), eleva a pena para o furto desses materiais de 1 a 4 anos para 2 a 8 anos de reclusão. Em caso de roubo, a pena atual de 4 a 10 anos poderá ser aumentada em um terço até a metade.
Se os bens subtraídos afetarem órgãos públicos ou serviços essenciais, como fornecimento de energia, telecomunicações, saneamento ou transporte, a pena será ainda mais rígida:
- Furto: reclusão de 2 a 8 anos
- Roubo: reclusão de 6 a 12 anos
O projeto também trata da receptação, ou seja, compra, venda, ocultação ou armazenamento de fios e cabos furtados. A pena prevista poderá chegar ao dobro da pena atual, variando conforme a gravidade do caso (simples ou qualificado).
O projeto de lei também altera a Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/98), ampliando a pena de reclusão de 3 a 10 anos para 2 a 12 anos, quando a ocultação ou dissimulação de bens envolver materiais obtidos por furto ou roubo.
Além disso, empresas concessionárias de telecomunicações que utilizarem fios ou cabos roubados poderão ser penalizadas com multa, suspensão ou até perda da concessão, se ficar comprovado que tinham ciência da origem ilícita do material.
O texto foi aprovado pela Câmara e segue para análise do Senado Federal.